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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Totalitarismo: felizmente destinado a falhar

Desde o nascimento daquilo a que chamamos “humanidade”, houve sempre a necessidade de ter alguém em controlo que gerisse todos os outros. Atualmente, na civilização ocidental, predominam regimes democráticos. Porém, até chegarmos a este ponto de democracia, a humanidade percorreu uma montanha russa política entre baixos não democráticos, subidas revolucionárias e pináculos liberais.
            Previno: não assumo qualquer posição política no meu discurso; decidi que não o faria até saber o suficiente sobre a política (ancestral e atual) de modo a possuir a capacidade de julgar, comentar e escolher. Porém, tendo, inevitavelmente, algumas opiniões definidas acerca do tema afirmo: sou contra os regimes totalitários.
            Por um regime totalitário entendo a existência de uma organização governamental em que os poderes de administração estão concentrados numa pessoa ou num grupo de pessoas com semelhantes ideais. Deste modo, não há qualquer restrição à autoridade governamental.
            Condeno esta organização governamental pois, em primeiro lugar, creio que em qualquer tipo de organização, um dirigente tem de ser eleito consoante a votação do povo que constitui essa mesma organização (no caso desenvolvido, o povo de um país). Isto é, enalteço o sufrágio universal, sem qualquer restrição (sexo, raça, entre outras) senão a idade. O dirigente de uma organização tem de representar os membros e fazer da voz do povo a sua voz. Tal não acontece num regime totalitário: as vozes alheias são ignoradas, a única que predomina é a voz do indivíduo ou conjunto de indivíduos que dirigem quase sempre de forma tirana, o povo.
            Para contrariar este argumento pode ser dito que também há descontentamento do povo em relação aos seus dirigentes em países democráticos. Isso será inevitável; seja pela divergência do povo ou pela incompetência dos dirigentes, nunca haverá uma total concordância e muitas vezes a voz dos dirigentes democratas não é a voz do povo que representam. No entanto, algo é certo: foi, de facto, esse povo que colocou os ditos dirigentes no poder. Não digo que o povo terá culpa de consequentes conflitos políticos, sociais ou económicos que decorram da incompetência dos dirigentes eleitos, mas eles foram, efetivamente, eleitos pelo dito povo de forma “legítima”.
            Para além disto, considerando que nos regimes totalitários há restrição das liberdades individuais, podendo inclusivamente haver discriminação social, política ou económico, há violação dos direitos humanos. Mesmo que esqueçamos a consideração objetiva dos direitos humanos, há violação da dignidade do ser humano. É a dignidade do ser humano que separa o Homem de um mero ser animado. Qualquer dirigente que execute esta transformação intrínseca desrespeita da forma mais deplorável o seu povo, não merecendo de todo o cargo que ocupa.
            Uma forma desta discriminação e infração dos direitos humanos é o favorecimento de determinadas classes, normalmente as que já são, por natureza, privilegiadas, relativamente às outras. Isto é equiparável a termos uma mãe ou um pai que favorece um dos filhos. Tal como estes “pais” não são adequados para a sua função, os dirigentes governamentais não são de todo aptos para o seu cargo.
            Pode ser dito que os estados democratas também têm favorecimentos sociais sobre a forma de subsídios e outras medidas sociais. Porém, estas medidas servem para minimizar diferenças sociais, não para as criar. Se um pai ajuda mais um filho com dificuldades do que outro que não as tenha, não está a ser “mau pai”, está a tentar que ambos estejam ao mesmo nível.
           
Ao longo da história encontramos exemplos de tirania política e revoltas contra a mesma. No século XVIII, os franceses revoltaram-se contra um rei absoluto preso no Antigo Regime, uma Bastilha de pessoas que eram silenciadas por destoarem, uma corte solene dispendiosa, um regime que favorecia os aristocratas e se suportava no infeliz povo. E foram, consequentemente, declarados os direitos humanos e dado ao povo liberdade. No início do século XX, os russos revoltaram-se contra um Czar detentor do melhor sentido de humor: suportava um país agrícola nos trabalhadores do campo, no entanto, estes tinham condições deploráveis em que qualquer tostão que vissem era rapidamente transferido para os bolsos dos latifundiários. Até Portugal se revoltou contra a monarquia e instituiu a república. A história prova, assim, que nenhum regime totalitário é promissor e que acaba por desabar.
Pode ser dito que todas estas revoluções tiveram consequências nefastas: em França passou a dominar o terror de Robespièrre e mais tarde Napoleão Bonaparte; na Rússia vingou Estaline, também opressor tirano totalitário (relembro que a eventual utilidade do Exército Vermelho só decorre de divergências entre ex-aliados Estaline e Hitler). Em Portugal instala-se uma república no mínimo problemática e uma consequente ditadura Salazarista. Trata-se da montanha russa política que mencionei anteriormente: a humanidade, pela imperfeição do ser humano, terá sempre tendência a problematizar o ideal e instaurar o tóxico. Sucede-se que quando o povo está revoltado e sente a necessidade de ser ouvido, acaba por confundir os próprios desejos e as vozes comunitárias com a sua. Haverá sempre alguém que veja na decadência uma oportunidade de ascensão. Isto passa pelo aproveitamento da vulnerabilidade que o povo adquire em tempos de mudança. Esta situação não se afasta muito da propaganda que Hitler infligiu numa Alemanha do pós-guerra humilhada e em complicações económicas da grande depressão. Recomenda-se cuidado e análise sistemática e, aqui, a individualização do povo em seres humanos racionais de opiniões divergentes.
Apesar das eventuais consequências nefastas das revoluções referidas (que acabaram, inclusivamente, por serem atenuadas), em todas delas há raios de esperança que se propagaram beneficamente até a atualidade: a implementação dos direitos humanos, a instauração da república em Portugal (à qual regressou após a ditadura) e ideais de valorização da igualdade do socialismo russo (admito existir essa luz nos conceitos marxistas).
Para além de tudo isto, defendo categoricamente a paz como a mãe da estabilidade. Baseando-me na história, todo o totalitarismo origina um consequente conflito armado (revoluções apresentadas, segunda guerra mundial, entre muitos outros), originando causalidades eminentes que perturbam, segundo o meu raciocínio, o equilíbrio da vida, ainda que esta seja subjetiva.


Em suma, nego o totalitarismo pela infração dos direitos humanos, pelo contraste exponencial entre o dirigente político e o povo que deveria representar, pelo silenciamento do povo que sustenta o próprio país, pela discriminação social tirana recorrente no totalitarismo, pela iminente perturbação da paz que origina e pela tendência que tem a falhar por inaptidão. Que se ergam dirigentes, mas que se ergam por escolha do povo e que trabalhem em função do mesmo (a utopia).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Ser humano - propensões primordiais para o mal

          O ser humano é uma das mais interessantes espécies, não sendo por isto superior a qualquer outra, praticamente, mas um acidente feliz da natureza e resultado de eventos quase mundanos. A única parte verdadeiramente significante do ser humano é a dimensão mental. A mente, a psique. A capacidade de raciocinar e sentir é o que separa o ser humano de todas as outras espécies.
            Porém, sendo que até o mais ideal dos sistemas tem falhas, o ser humano, espécie tão brilhante e capaz, pináculo da grandeza, não passa de uma compilação de defeitos.
            O ser humano é, para mim, naturalmente mau. Esta questão da natureza do homem é muito controversa, dado que as pessoas, pela sua bela divergência têm tendências pessoais diferentes. Porém, a natureza humana tem para mim uma raiz malévola. Acredito que ninguém se torna mau pelas circunstâncias. A única coisa que as circunstâncias podem fazer é despoletar essa natureza soturna. Lamento desiludir todos os crentes na bondade humana, mas pelo menos parcialmente, será bastante evidente que não passamos de uma luta constante entre as trevas e alguns feixes de luz, sendo que a escuridão brilha mais que a luz, independentemente do quão paradoxal possa parecer.
            Esta infeliz tese fundamenta-se sem qualquer esforço por si própria. As marcas da maldade humana são mais do que evidentes. Elas marcam de escarlate a história. É triste mas a guerra foi-se banalizando ao longo dos tempos como uma alternativa admissível a qualquer conflito, derramar sangue foi-se tornando cada vez mais leviano, retirar os direitos a alguém, rebaixar alguém. Roubar a dignidade de um ser humano é tao recorrente como deplorável. Tudo isto causado por seres humanos evidentemente. O ser humano consegue construir o mais horrível dos textos com as mais belas palavras. Esta natureza ultrapassa a dimensão animal. Trata-se de um crescimento decadente da psique.
            Diria, exemplificando, que o ser humano é como um bolo. A base do bolo é a farinha. No caso do ser humano, por muito bons que sejam os restantes ingredientes, a farinha será sempre sombria. Por muito bom que pareça ser o bolo, a sua raiz, o seu estado primordial for de escuridão pura.
Os exemplos são inúmeros. A guerra é o mais catastrófico evento, em termos de causalidades e dimensão. Sucintamente, a guerra é uma panóplia ridícula de motivações não coincidentes que resulta em destruição. É muito difícil construir uma civilização em que não haja quaisquer conflitos. Pode-se afirmar que tal resulta da divergência humana, no que concerne as opiniões e as crenças. No entanto, o ser humano, sendo possuidor de tais opiniões não tem qualquer direito de as impor ao próximo.
Por outro lado, algumas guerras resultam de motivações admissíveis: a liberdade própria ou alheia, pôr termo à injustiça recorrente entre outras. No entanto, a minha tese prevalece. Ora, a motivação só existe porque existe também injustiça, sendo essa injustiça criada exatamente pelo defeituoso ser humano. Isto é, nunca teriam os Aliados declarado guerra ao Bloco Central, se estes não fossem responsáveis por diversas injustiças e atos que degradam tanto o ser humano como o coletivo.
Há quem creia na bondade do ser humano. O sacrifício, o altruísmo, o amor. Obviamente que estas e muitas mais situações revelam que o ser humano é também uma espécie bondosa, “com coração” e interessada em promover o bem. São estas as exibições dos “feixes de luz” que mencionei. Há pessoas que ascendem a anjos, ao etéreo. Infelizmente, também Ícaro com as suas esbeltas e promissoras asas foi dominado pela ambição. Não que todos sejamos maus, não que todos sejamos más pessoas, mas que todos tenhamos maldade, escuridão dentro de nós.
De certa forma isto resulta de uma tendência animal. Foi o egoísmo que permitiu a ascensão desta espécie. Egoísmo esse que não reflete mais do que uma tendência natural a prevalecer. Mas, se foi o “egoísmo” que permitiu chegar ao estado atual, se este “egoísmo” está na base do nosso ser, será possível negar a maldade residente dentro de nós? Será que a um assassino que se confesse daremos o nosso honesto perdão e condolências pelos tormentos?
Na minha opinião, o que nos torna verdadeiramente humanos é capacidade de sentir. O remorso é o que diferencia o humano do pseudo-humano. Todo o ser erra, mas apenas aquele que o reconhece é verdadeiramente humano. Outra propensão humana é a loucura. Todo o ser humano, com interior negro, vive na corda bamba: a circunstância é a cruel mão invisível que propõe o ser à queda espiral e eterna para aquela que é uma vida desordenada, um mundo oco ao contrário. A loucura acaba por ser uma manifestação da natureza escura do ser humano e, por isso mesmo, a mais bela e fascinante área da psique. A psicopatia reflete exatamente o distúrbio da mente em que se observa a ausência do remorso. Ninguém tem culpa da sua própria patologia mas a verdade é que elas decorrem da natureza malévola do ser humano.
A verdade é que, no fundo, somos todos loucos. Alguns de nós conseguem lidar com essa loucura e controlá-la, outros nem se apercebem dela porque, felizmente, as suas vidas são fortemente iluminadas, outros acabam por se entregar a ela, passam o ponto de não retorno. Tem tanto de assustador como de fascinante. Todos podemos convergir num ponto: a mistura de preto e branco pode não deixar o preto intacto mas decerto tinge o branco de forma implacável. No mesmo ponto, é impossível alguém ser completamente “boa pessoa”. Qualquer um o reconhece, basta olhar para a história ou, até mais “perto”, para o próximo, para o espelho. É claro. E é triste.

        Com esta infeliz conclusão de que estamos todos danados, trago alguma felicidade. O mundo não tem de ser um sítio infeliz. Temos de nos agarrar com toda a força e determinação à luz que existe nos nossos dias. A memória é o mais fascinante dos exercícios. Memória de tempos inocentes, tempos mais felizes. Memória da primeira flor a desabrochar na primavera, a primeira folha corada a cair no outono, o primeiro raio de sol num dia perdido, do platónico do dia, do branco mármore clássico, da simplicidade natural da Renascença, da solene extravagância do berrante barroco, da sua música tanto romântica como aterradora, da ironia vitoriana da moral extrema com a marginalidade londrina, a inocência aristocrática da Belle Époque e assim permanecemos em busca do tempo perdido, da beleza efémera que oculte a nossa soturna natureza. Assim é possível a redenção parcial. E rezemos. Lembremos e sobretudo rezemos que estejamos muito longe de um abismo, pois reside aí o nosso fim.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"O Pintor da Vida Moderna", de Charles Baudelaire

O pintor da vida moderna, de Charles Baudelaire, é uma obra do século XIX. Esta obra é um ensaio, sendo que em toda a sua extensão são expostas ideias, críticas e reflexões acerca do trinómio modernidade, arte e beleza, através da descrição de elementos que o constituem.
Baudelaire começa por apresentar uma crítica generalizada à arrogância dos que se acham eruditos por consumirem a cultura popular de massas, desprezando os artistas menores. Enaltece, assim, aqueles que conseguem reconhecer a beleza também nos menores artistas, nos que facilmente passariam despercebidos à sombra dos grandes.
O autor faz uma importante reflexão sobre a moda, que poderia servir de cânone cultural a todas as épocas. Reconhece na moda a ideia que o Homem tem de beleza e relação que com ela estabelece, para além de refletir o pensamento filosófico da época. Assim, enaltece o interesse cultural da moda, ao invés do preconceito geral de que a moda é algo superficial. Apesar de reconhecer a história como um componente essencial da arte (e da moda), condena a utilização de modelos antigos como direção principal, introduzindo uma excecional caraterização da beleza, reconhecendo-lhe um elemento eterno e um circunstancial. Para Baudelaire, o elemento eterno relaciona-se, precisamente, com a história, com a capacidade de olhar para trás e aprender e revolucionar sem necessariamente destoar. O elemento circunstancial relaciona-se com a paixão e especificidade da época. Sem este elemento, a arte seria intrinsecamente insípida (nada mais senão a repetição fatigante do já existencial, daí o apelo à originalidade).
Como centro da compreensão desta obra, destaco o conceito de flâneur, em O Pintor da Vida Moderna. Este termo francês, que poderá ser traduzido como errante, o que vagueia sem destino, é essencial para distinguir o mero artista, que será limitado e mundano, do homem do mundo, que é livre. O errante é aquele que se sente em casa fora de casa; o que vê o mundo e está no centro do mundo, mas dele se esconde, nele passa despercebido; aquele que reconhece no mundo a sua família; o que tem um espírito independente, apaixonado, destemido. O errante contempla a vida e só depois tenta encontrar uma forma de a expressar. Somos todos, no fundo, errantes. O que nos deveria distinguir dos meros é o propósito; devemos, sim, vaguear mas não arbitrariamente. Devemos observar, não olhar; escutar, não ouvir; sentir, tocar, contactar. É tudo o que levamos da vida.

Na obra, é ainda introduzida importância da criança, ou pelo menos da sua forma de pensar; para a criança tudo é novidade, nada está desgastado. A utopia era vivermos desta forma, sermos errantes mas com a mente da criança. Somos nós, desta forma, errantes aplicados, que temos a função de procurar expressar e construir a modernidade no detalhe, extrair o eterno da circunstância, e daí extrair a beleza da época. É assim que se constrói a modernidade, modernidade esta não eterna, não algo que perdura, mas algo fugaz e circunstancial que será no futuro, inevitavelmente, passado. Cada modernidade que temos o prazer de experienciar é uma e uma só, é bela pelos detalhes, pelas partes talvez não propriamente transcendentais mas que a distinguem. Esta beleza não está, necessariamente, associada ao que é bonito. É um diamante em bruto, não polido, e é desta forma suja e agressiva que a devemos sentir. Ela será polida por uns, e dessa forma consumida por outros, mas só aquelas que pelo tempo foram erodidos é que a sabem, a compreendem.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Belos e malditos, Fitzgerald

Belos e malditos
Belos e Malditos, de F. Scott Fitzgerald, trata a história de um casal, Anthony Patch e Gloria Gilbert. Anthony, que assume uma posição central no início, foi criado pelo seu avô, detentor de um grande império, tendo perdido os pais aquando criança. A personalidade de Anthony encontra um conflito: por um lado, é descrito como um homem culto, confiante e conquistador, no entanto, interiormente revela-se tão inseguro e só como era durante a sua adolescência. Anthony não trabalha, vivendo em Nova Iorque despreocupada e luxuosamente às custas do seu avô. Tem o medo constante de estar sozinho, ocupando-se de festas. O seu desejo de não casar muda completamente quando conhece Gloria, por intermédio de um primo dela que é seu amigo. Gloria Gilbert é uma mulher bela e carismática, abordada e desejada por todos os homens. O interesse que os homens têm nela advém não só da sua beleza mas da sua atitude despreocupada e de profundo desinteresse para com eles. Ao início parecem completamente incompatíveis, mas Anthony acaba por conquistar Gloria, sendo também conquistado por ela. Casam-se. No início do casamento, tudo corre bem. Vivem acima das suas possibilidades, dando-se ao luxo de dividir o ano por duas casas, tendo carro, mordomos, tomando as refeições em hotéis ou restaurantes e comprando tudo o que desejam. Gloria tem completo controlo da relação, manipulando facilmente Anthony como se este fosse uma marioneta. Assim que desvanece a paixão e entusiasmo inicial, o casamento é tremendamente abalado. Apesar de viverem de forma exuberante em constante estado de festa, sentem agora a necessidade de se rodearem constantemente de festas, pessoas, bebidas, entretenimento, pois no fundo sabem que tanto se amam loucamente como se odeiam perdidamente. No núcleo deste modelo de vida fantástica está um casamento frágil em que eles não são o suficiente um para o outro. Tal é agravado por problemas financeiros, muito esperados devido à vida ociosa que levavam. Enquadram-se numa sociedade de decadência de valores. As suas atitudes são quase calculadas – não há paixão nem carinho, mas sim recriminação. Anthony torna-se frio e mais difícil de manipular. Gloria sente desprezo pelo esposo, desejando primeiramente a perenidade da sua beleza, dinheiro e um vida confortável. Este constitui o amor tóxico entre eles.
Toda a esperança de um futuro reside no desejo patológico de herdarem a fortuna do avô de Anthony, o moralista Adam Patch, após a sua morte. Ambos caem na vulgaridade, perdem a vida interior com que se seduziram mutuamente.
Quando Anthony regressa do treino militar que teve durante um ano (formação para a 1ª Guerra Mundial), há um temporário regresso ao casal que eram no início. Porém, acabam por cair num casamento perdido que é agravado pelos sérios problemas financeiros, especialmente após não receberem nada da fortuna do avô, que entretanto morrera e deserdara o neto. De Anthony apodera-se um alcoolismo profundo e de Gloria uma depressão não só pela descida social que sofreram mas pela relação de desprezo e repugno que tem com Anthony.
Após um demorado processo contra o mordomo do avô de Adam, que recebera a maior parte da fortuna, finalmente conseguiram recuperar a fortuna a que sempre atribuíam prerrogativas falsas. No entanto, tal não salva a relação. Anthony está perdido, louco. Este é o culminar de sete anos de casamento exuberante.

A partir da leitura da obra é-nos possível concluir que em cem anos muito evoluiu no mundo mas pouco evoluiu no comportamento do ser humano.
Tal mostra uma constante presente no Homem. Essa constante passa muito pela perdição que o ser humano encontra no amor. Essa perdição constitui a grande fragilidade do ser humano – o facto de que o amor pode trazer a maior felicidade na vida mas também a maior desilusão, tristeza e miséria. É assustador para o ser humano a noção de que a sua felicidade, que condiciona toda a sua existência, depende de outra pessoa (ou outras pessoas) – não controlamos a nossa felicidade porque não conseguimos controlar as nossas emoções; sempre assim o foi. A nossa maior fragilidade é congruente com o maior contentamento que podemos ter na vida – o amor.
Também é possível ser extraída uma lição sobre a ganância doentia que resulta da ambição descabida de esforço, sustentada por esperanças. A ambição associada ao esforço pode ser saudável mas, neste caso, residia no destino de outrem. Não é assim que devemos viver.

Tal como o dinheiro não faz a felicidade, não pode recuperar algo desmoronado – mesmo quando receberam a herança, não havia esperança para aquele casamento tumultuoso e inconstante. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Quem é Alice?

Alice, da história As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, não é uma menina comum. Esta personagem é muito dinâmica e rica em vida interior. Por detrás desta personagem existe a conjugação entre traços de inocência, ingenuidade e curiosidade, tipicamente de uma criança e traços de coragem, racionalização e autocontrolo, típicos de adultos. Alice tem um comportamento fora do comum logo no início da história – esta vê um coelho com caraterísticas humanas e a sua reação não é de espanto nem de admiração, mas sim de o perseguir. Aqui é mostrada a sua coragem, curiosidade e peculiaridade – para Alice o extraordinário consiste na ocorrência do comum, e o ‘normal’ tem uma margem tao ampla que admite acontecimentos extraordinários.
Esta personalidade ‘fora-do-comum’ é novamente mostrada na queda de Alice. Uma criança ‘comum’ ficaria contaminada de histerismo e terror; Alice, porém, assume uma posição descontraída ao ponto de pensar em coisas das quais muito poucas pessoas se lembrariam se estivessem no seu lugar (muito menos uma criança). Esta descontração demonstra-se praticamente quando retira um frasco de compota durante a descida e o que a deixa aborrecida, o que afeta o seu bem-estar psicológico após algo tão estranho, é o facto de o frasco estar vazio. Outro aspeto que atribui a Alice um caráter peculiar é a racionalização particular que faz – não atira o frasco para o chão pois tem medo de magoar alguém. Uma criança, nesta situação, poderia considerar o sítio para onde está a cair, mas dificilmente pensava na existência de alguém nesse mesmo sítio, alguém que tivesse percorrido o mesmo caminho.
A sua coragem volta a exibir-se quando bebe o líquido e come o bolo cujas origens desconhece. É feita novamente uma distinção inata entre a reação de uma criança normal e a reação de Alice perante algo incomum – aparece, como que por magia, um bolo em cima da mesa e, em vez de se questionar acerca da origem do bolo, pensa se o devia ou não comer.
A inversão do que é normal e extraordinário, segundo Alice, volta a ser evidente quando fica extremamente surpreendida, no final do primeiro capítulo, quando algo de normal acontece – come o bolo e não altera imediatamente o seu tamanho.


Um aspeto que também ajuda a uma caraterização incomum para uma criança, sendo mais esperado de um adulto, é a constante dúvida que tem acerca da sua identidade. Questiona-se sobre a sua própria pessoa, o que se intensifica quando não se reconhece a si própria. Uma criança muito dificilmente teria esta atitude mas como Alice tem uma visão inversa da realidade (o que para si é comum é a ocorrência do que é normalmente considerado como extraordinário), questiona-se não sobre o que a rodeia, onde está, a conceção do sítio onde se encontra e como a afeta, mas sobre si própria e no que se está a tornar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Momento autobiográfico - A chuva

Era uma tarde de inverno, num domingo cuja data certa não me recordo. Chovia de forma deprimente, como se as gotas de chuva apagassem a beleza do mundo. Eu sempre achei a chuva incómoda, claro que tinha as suas vantagens, mas incómoda na mesma. Chuva sempre foi, para mim, sinónimo de cinzento, tristeza, e a ausência de cor provoca-me sempre um empobrecimento de espírito. Sem nada de interessante para me ocupar o tempo, olhei pela janela, como tantas vezes o fiz antes. Encostei a cara à janela e o vidro ficou embaciado. Era um hábito singular mas sempre encontrei calma e serenidade neste estranho ato. Olhar pela janela… Parece tão básico e insignificante mas sempre me distraiu e fascinou, independentemente da paisagem. Talvez a janela me dê a sensação de proteção do que se encontra para além dela, ou talvez seja somente um velho hábito. Ao olhar pela janela não encontrei calma e entusiasmo na relva verde, nas árvores baixas, no gradeamento verde-escuro, no muro amarelo nem nas casa dos vizinhos mas comecei a pensar, a imaginar. Comecei a recuar no tempo na minha própria dimensão. Dei por mim a questionar o que teria sido a minha casa, a minha rua, os sítios por onde passo no passado. Teria havido algum acampamento pré-histórico no sítio onde, hoje, vejo televisão? Teria o terreno de minha casa sido visitado por Romanos? A partir daí comecei a divagar. Comecei a pensar que o chão que piso e os locais por onde me desloco da forma mais casual possível poderiam, no passado, ter sido um castelo medieval onde fidalgos dirigiam as suas vastas propriedades, onde pequenas meninas aprendiam a ser damas de apreço e estima. Talvez a minha rua teria visto os amores e desamores de jovem casais, numa época mágica e mítica. Teriam sábios pisado o que eu piso? A chuva que tanto me incomoda terá quiçá incomodado reis e rainhas, altos senhores e senhoras ou simples camponeses que apesar de não terem deixado lembranças no mundo, encontram espaço no meu peculiar pensamento. Por onde caminho terá caminhado algum marinheiro que foi à Índia com Vasco da Gama ou algum corajoso que deu a vida pelo país sem qualquer apontamento na história mas com prestígio amiúde nas minhas ilusões? Imagino importantes senhoras do Barroco a aplicarem pó de arroz onde eu observo o meu simples reflexo, a pensarem na vida que levavam, com todo o fausto e pompa, com penteados tão altos como a honra dos cavaleiros, senhoras essas vestindo grandiosos e magnificentes vestidos, com os quais mal respiravam. Visiono pequenas crianças a correrem no jardim. Imagino história a ser feita, batalhas a serem travadas, heróis a serem aclamados, perdedores com orgulho ferido. Imagino a subtileza e inocência de épocas mais simples, em que a palavra importava e a cultura era seriamente valorizada. Todos estes momentos históricos unidos pela chuva, que ao contrário das Pessoas não tem preferências nem preconceitos. Como invejo aquela chuva! Já viu tantas coisas magníficas, tantos períodos da história que me fascinam tremendamente. Desejava também eu experienciar tais coisas, ver outras realidades para além da contemporânea onde tudo carrega estigma, onde as pessoas são más, onde qualidades como a inocência e bondade são negligenciadas, onde a menor gafe ou mal-entendido carrega tal negatividade que despoleta repugno pelas pessoas com as quais convivemos. Quando estou cansada do mundo em que vivo, penso na chuva, que tanto viveu. E fascina-me como é que eu, humana e preanunciada como superior às outras espécies, invejo tal coisa, que até me incomoda, e na qual procuro conforto. Nesta tarde de domingo vi a chuva de outra forma – não como algo negativo, nem exatamente como algo apreciável, mas como uma escapatória à realidade com a qual me deparo. Para além disto, sempre que sou abordada por estes pensamentos, concluo que sou muito diferente das outras pessoas. Sou estranha, peculiar, e não me importo de o ser. Ser igual aos outros não é interessante. Espero que a sociedade permita a existência desta estranheza, não por mim mas para que daqui a alguns séculos haja alguém que se lembre não só dos belos e famosos mas também daqueles que nenhuma marca significativa deixaram na história. Se eu própria, daqui a alguns anos, for transparente numa dimensão global, contento-me com a ideia da ‘estranha rapariga que gosta de pensar na chuva’ que outrora fora.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Room in New York

            Na minha opinião, a pintura retrata uma cena melancólica da vida de um casal. O casal parece ter uma boa posição social: o homem usa fato e dedica-se á leitura do jornal; o piano também assiste a uma ideia de cultura e fortúnio. Apesar de uma aparente vida plena, a cena parece nostálgica porque não existe qualquer ligação entre o casal: se qualquer um deles fosse removido da obra, a sua ausência não seria notada. Ambos se ignoram. A esposa transparece tristeza e aborrecimento. Interage com o piano de forma insignificante porém como se fosse a única escapatória àquele casamento falhado. Transmite um triste comodismo àquele quotidiano de negligência e de uma inutilidade forçada.
            Essencialmente é retratada a objetivação das mulheres e a insignificância que representavam, sendo meras peças da vida dos homens.